Treinamento e Defesa – A Importância do Instrutor de Armamento e Tiro

Pois é, meus amigos, no Brasil do Estatuto do Desarmamento, você tem duas opções para adquirir legalmente uma ou mais armas: Pedindo autorização à Polícia Federal, através do SINARM (Sistema Nacional de Armas) ou ao Exército Brasileiro, através do SIGMA (Sistema de Gerenciamento Militar de Armas).

São dois sistemas completamente diferentes, com finalidades e aplicações distintas para as armas adquiridas por meio de um ou de outro.


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Acima: Imagens retiradas dos sites de internet do SINARM  e do SIGMA, respectivamente.


Na minha visão essa distinção sequer deveria existir, aliás, sou absolutamente contra o controle de armas, pois o registro delas em nada ajuda ou influencia na diminuição da violência ou nas investigações dos crimes.

Mas a legislação é assim: dois sistemas distintos, que não se comunicam, projetados para finalidades completamente diferentes. O objetivo deste texto não é o de questionar as Leis, mas sim o de apresentar soluções lícitas para que o cidadão se mantenha armado e treinado para defesa do seu lar e da sua família, apesar das dificuldades impostas pelas Leis desarmamentistas.

Se você optou pelo registro junto ao Exército (SIGMA), então você vai ter que trilhar o caminho do Colecionador, Atirador e Caçador (CAC). Esse não é o melhor caminho para quem quer ter uma arma de fogo em casa, apenas para defesa pessoal. Isso porque o CAC é obrigado a competir para manter seu direito de propriedade sobre suas armas. Isso mesmo, se o CAC não competir, não conseguirá manter seus documentos em dia, e, mais cedo ou mais tarde, terá a sua coleção confiscada pelo Exército. Isso já está acontecendo em São Paulo (Segunda Região Militar), agora mesmo, enquanto escrevo esse texto.


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Acima: exemplo de um documento de Certificado de Registro de Caçador, Atirador e Colecionador de armas.


A decisão de obrigar o atirador esportivo a competir, sob pena de confisco de suas armas, não apenas parece, mas realmente é inconstitucional, pois a Constituição Federal define que: “é dever do Estado fomentar práticas desportivas formais e não-formais” (Art. 217). Mas o atirador desportivo é compelido à prática formal, pois é obrigado a competir, ficando proibido de optar apenas pela prática não-formal.

No entanto, mais uma vez, esse texto não tem o propósito de discutir as absurdas normas, nascidas nas mentes daqueles que veem o esporte do tiro como uma das mais graves ameaças sociais.

Então se você optou por ser CAC, vai ter que atirar pelo menos 8 (oito) vezes por ano, sendo pelo menos 7 (sete) treinamentos e 1 (uma) prova esportiva. Nesse caso, você vai praticar, quer queira, quer não. Então busque estar sempre atento aos 5 (cinco) fundamentos do tiro.

Além disso, os diretores de prova podem te ajudar. Você vai atirar com tempo cronometrado em quase todas as provas que escolher praticar, enfim, o tiro esportivo serve sim como um excelente treinamento para manter-se afiado nas técnicas de defesa. Principalmente se você pratica alguma ou algumas das modalidades de Tiro Prático ou de Tiro Defensivo.

Mas e se você, como a maioria das pessoas, escolheu o caminho de comprar uma arma através da Polícia Federal?

Nesse casso, você declarou a efetiva necessidade para a aquisição da arma, que sempre é a defesa. Afinal, o que mais seria uma efetiva necessidade? Se o seu pedido foi deferido, então você está autorizado a comprar uma arma de fogo, curta ou longa, com cano de alma lisa ou raiada, de calibre dito “permitido” (saiba que a PF pode negar seu pedido, sob o fundamento de que discorda da sua necessidade em se defender).

Depois de todos os trâmites e carimbos, você volta para a casa, com sua arma na caixa; na maioria das vezes é uma arma curta com cano de alma raiada, normalmente um revólver em calibre .38 SPL ou uma pistola em calibre .380 AUTO.


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Acima: Revólver Taurus, em calibre .38 SPL e Pistola Imbel em calibre .380 AUTO.


Na outra mão você trará o limite ANUAL de munição para o seu revólver ou para a sua pistola: 50 (cinquenta) cartuchos. Isso mesmo, 50! Como treinar E se defender com tão pouco? Como saber se a arma está funcionando? Como saber se ela vai travar, ou negar fogo, na hora em que sua vida estiver dependendo do seu bom funcionamento?


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Cartelas contendo cartuchos de munição, em calibre .38 SPL à esquerda e em calibre .380 AUTO à direita.


Mais importante: como se deslocar para um local adequado ao treinamento, sem incorrer nas penas do porte ilegal de arma de fogo? Afinal, sua autorização para a posse da arma, não inclui autorização para o transporte ou para o porte.

E para coroar as dúvidas: O QUE TREINAR? Qual é o alvo usado nesse treino de natureza defensiva? Qual é a distância adequada para esse treinamento? Quais são os exercícios necessários?

Todas as dúvidas podem ser devidamente sanadas, sem que você incorra nas penas do porte ilegal de armas de fogo e sem que você jogue seu dinheiro fora fazendo disparos a esmo, sem planejamento. Sim, se você for simplesmente atirar, sem qualquer preparo, supervisão ou propósito, você não está treinando, está apenas rasgando seu dinheiro. E, provavelmente, está cometendo alguns dos muitos crimes previstos pelas absurdas Leis do desarmamento.

Em primeiro lugar, você precisa solicitar a emissão de uma guia de trânsito à Polícia Federal, o que pode ser feito uma vez por ano, para treinar em determinado estande de tiro, num dia específico. Tanto o local de treinamento, quanto o dia, devem ser especificados no pedido da guia. (http://www.pf.gov.br/servicos-pf/armas/form-sinarm)

É agora que entra a grande importância do Instrutor de Armamento e Tiro. Isso porque essa guia só pode ser emitida uma vez ao ano e você não vai querer gastar seus 50 (cinquenta) cartuchos da defesa nesse treinamento.

Então para aproveitar o seu tempo e o seu dinheiro, você deve agendar o treinamento com um Instrutor credenciado, para que ele possa adquirir legalmente a munição dos seus exercícios e para que você pratique, de forma adequada e supervisionada, as técnicas efetivas de defesa, além dos 5 (cinco) fundamentos do tiro. O instrutor irá lhe apresentar uma proposta de honorários pelo treinamento, além de repassar o custo da munição adquirida para essa finalidade.

Mas o que treinar?

Primeiramente, esteja ciente de que para defender seu lar e sua família, seria ideal praticar mais de uma vez por ano, mas com 1 (um) treinamento anual é perfeitamente possível manter-se apto a efetuar disparos defensivos eficazes.

A quantidade de cartuchos disparados nesse treino não precisa passar de 50 (cinquenta), pois na média, após 50 (cinquenta) disparos um atirador não habitual começa a ficar cansado e perde a concentração. Além disso, com essa quantidade é possível treinar o mínimo para manter-se atualizado no tiro.

Cabe aqui uma informação, sob título de curiosidade: quase todos os policiais do Brasil, de quaisquer corporações, disparam muito menos do que 50 (cinquenta) tiros por ano em treinamento. Alguns passam décadas sem atirar. Assim, se você puder fazer um treino por ano, com essa quantidade de munição, saiba que estará mais treinado que a esmagadora maioria dos policiais brasileiros.

Qual alvo você deve usar? Recomendo o alvo de silhueta humana, o mesmo usado na prova para aquisição de armas de fogo através da Polícia Federal. Trata-se um alvo novo, com bons padrões de contraste e zonas de impacto concêntricas, para a colocação dos disparos. A zona de impacto mais valiosa se concentra no mediastino, compreendido pela área central da caixa torácica humana, que é o ponto de visada ideal para a prática do tiro defensivo. Não pratique tiros na cabeça do alvo, pois em uma situação defensiva é praticamente inviável visar e acertar a cabeça do seu oponente.


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Alvo de silhueta humana. Note que a região do mediastino é a mais valiosa, valendo 5 (cinco) pontos por cada acerto.


Antes de começar esteja sempre atento às instruções e aos comandos do seu Instrutor de Armamento e Tiro, siga todas as regras e segurança e vista seu equipamento de proteção individual, mesmo se isso não for comandado. Preste muita atenção às orientações e correções do seu Instrutor, pois essa é a melhor forma de extrair o melhor do seu treinamento.

A maior parte das situações de defesa do lar ou do local de trabalho ocorrem entre 3 (três) e 7 (sete) metros de distância, portanto o alvo deve ser posicionado inicialmente a 5 (cinco) metros e depois a 7 (sete) metros de distância do atirador.

Finalmente, mas não menos importante: o que treinar e como distribuir seus 50 (cinquenta) cartuchos pelos exercícios propostos. Separe seus cartuchos em 5 (cinco) partes, para treinar da seguinte forma:

[1] Com 20 (vinte) cartuchos: treine os 5 (cinco) fundamentos do tiro, fazendo 4 (quatro) séries de 5 (cinco) disparos, a 5 (cinco) metros de distância do alvo, sem contar o tempo, dando o máximo de atenção, em cada disparo, a cada um dos fundamentos. Ouça atentamente as correções do Instrutor e busque atendê-las, com o máximo de concentração. Essa é a parte mais importante e cansativa do treinamento.

[2] Com 10 (dez) cartuchos: treine o tiro rápido visado, fazendo 5 (cinco) séries de 2 (dois) disparos, a 5 (cinco) metros de distância do alvo, cronometrando o tempo de 5 (cinco) segundos para cada série de 2 (dois) disparos. Em cada série, parta da “posição de retenção”, com a arma corretamente empunhada, travada (se tiver trava), com os braços flexionados, aproximando a arma do seu tórax, com o dedo fora do gatilho e com o cano inclinado para baixo, no ângulo de 45° (quarenta e cinco graus). Em cada série, ao comando do instrutor, o atirador deve esticar os braços, destravar a arma (se tiver trava), fazer a visada, e efetuar 2 (dois) disparos.

[3] Com 5 (cinco) cartuchos: treine o tiro segurando a arma apenas com a mão dominante, fazendo 1 (uma) série, de 5 (cinco) disparos, a 5 (cinco) metros do alvo, cronometrando o tempo de 10 (dez) segundos para a série. O braço correspondente à mão de suporte deve estar o tempo todo recolhido, com o antebraço em diagonal, pressionado contra o tórax do atirador, com o punho cerrado. Parta da “posição de retenção”, porem mantenha a arma empunhada com apenas uma mão desde o início.


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Posição de tiro defensivo com uma mão.


[4] Com 5 (cinco) cartuchos: treine o tiro segurando a arma apenas com a mão de suporte. Siga as mesmas instruções do item [3], mas inverta as mãos e faça os disparos com a mão de suporte.

[5] Com 10 (dez) cartuchos: treine o tiro rápido visado, fazendo 5 (cinco) séries de 2 (dois) disparos, a 7 (sete) metros de distância do alvo, cronometrando o tempo de 5 (cinco) segundos para cada série de 2 (dois) disparos. Siga as mesmas instruções do item [2], mas posicione o alvo a 7 (sete) metros de distância.

IMPORTANTE: use 5 (cinco) alvos, sendo um para cada exercício. No primeiro exercício, use obréias para tapar os furos dos tiros em cada uma das 4 (quatro) séries, para que o alvo não tenha mais do que 5 (cinco) furos por vez. Assim, o instrutor pode analisar e corrigir os erros, ao mesmo tempo em que avalia o progresso do treinamento.

Essas são as minhas recomendações para que um cidadão, proprietário de uma arma de fogo, regularmente registrada na Polícia Federal (SINARM), se mantenha minimamente treinado para enfrentar uma situação de defesa do seu lar ou local de trabalho.

Lembre-se: segurança em primeiro lugar.

Alexandre Coelho.

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