Os 5 (cinco) Fundamentos do Tiro

Estou aqui diante de questões aparentemente básicas, afinal, parece óbvio que qualquer pessoa apresentada à pratica do tiro, seja recreativo, esportivo ou defensivo, deveria, antes de mais nada, saber quais são os fundamentos daquilo que está prestes a fazer.

Mas a realidade não é essa. Afinal, muito antes de aprender os fundamentos do futebol, do basquete ou do voleibol, as crianças são apresentadas às modalidades esportivas. Só muito depois, nas aulas de educação física, os alunos serão apresentados aos respectivos fundamentos.

Quase todos os atiradores que conheço foram primeiramente apresentados ao tiro recreativo, depois ao esporte e depois às técnicas de defesa. Sei que há muitos outros, começando pelas técnicas de defesa e outros ainda começando pelo esporte, mas acredito, com base em experiência pessoal, que a maioria segue a ordem que me é mais comum: recreação, esporte e defesa.

Cabe aqui uma importante desambiguação: as regras de segurança, assim como a obrigatoriedade da utilização dos equipamentos de proteção individual, NÃO integram os fundamentos do tiro esportivo e com eles não devem ser confundidos. Isso porque as regras de segurança devem ser passadas ao atirador antes mesmo de ele tocar nas armas para iniciar os disparos, enquanto os fundamentos do tiro são as técnicas a serem observadas durante a prática, para maximizar a eficiência e a precisão dos disparos.

Sobre a utilização de equipamentos de proteção individual e sobre regras de segurança, recomento a leitura do meu texto, publicado aqui mesmo no Aço Temperado Blog.

Dito isso, passo aos fundamentos propriamente ditos:

[1] POSICIONAMENTO;
[2] EMPUNHADURA;
[3] VISADA;
[4] RESPIRAÇÃO;
[5] CONTROLE DO GATILHO.

Embora não seja correto falar em fundamentos mais ou menos importantes (afinal todos são fundamentais), é bem certo afirmar que a respiração e o controle de gatilho, quando mal treinados, são as principais causas de obtenção de pobres resultados na prática do tiro.

Importante ter a noção de que os 5 (cinco) fundamentos são apresentados na mesma ordem que o atirador vai seguir na pista de tiro: primeiro ele se posiciona, depois empunha a arma, para depois fazer a visada, feita a visada, volta sua atenção à respiração e, finalmente, deve se concentrar ao máximo no controle do gatilho, pois este é o momento em que pode desperdiçar todo o seu esforço. Vou abordá-los um a um:

[1] POSICIONAMENTO:

Tudo começa por aqui, pois antes de empunhar a arma, o atirador chega à linha de tiro e se posiciona diante do alvo.

Existem diversos posicionamentos de tiro, que também podem ser chamados de posturas de tiro. Vou me deter apenas em dois deles, os mais comuns no mundo todo para as armas curtas. Para posicionamentos de tiro com armas longas, eu recomendo a leitura do meu texto sobre a prova esportiva denominada "Carabina Mira Aberta", publicado aqui mesmo no Aço Temperado Blog.

Os dois posicionamentos, ou posturas, mais comuns para armas curtas são: Waever e Isósceles.

[1.1] Weaver: posição ou postura de tiro desenvolvida pelo Xerife Jack Weaver, de Los Angeles, Califórnia, EUA, no final da década de 1950, para competições de estilo livre com armas curtas. Esta técnica possui dois componentes básicos.

[A] Como primeiro componente, destaca-se que é uma técnica de duas mãos, para buscar mais estabilidade com a arma curta, pois neste equipamento não há apoio para o ombro. A mão que efetua o disparo é usada para segurar a arma, enquanto a outra mão envolve a primeira. O cotovelo do braço que faz o disparo fica ligeiramente dobrado, quase esticado, enquanto o cotovelo do braço de suporte fica um pouco mais dobrado. O atirador deve empurrar para frente a mão que fará o disparo, enquanto puxa para trás a mão de suporte, exercendo o que é chamado de “tensão isométrica” sobre a arma. O objetivo da tensão isométrica é o de diminuir o tempo de recuperação da visada do atirador, possibilitando sequencias mais rápidas de disparos.

[B] O segundo componente é o posicionamento dos pés do atirador, em postura quadrangular, com o pé correspondente à mão de suporte um pouco mais à frente do pé correspondente à mão que efetua o disparo. O pé correspondente à mão que efetua o disparo, além de estar um pouco mais para trás, também deve estar um pouco virado para fora, fazendo um ângulo de aproximadamente 45 (quarenta e cinco) graus com a linha de visada do atirador. O tronco do atirador deve estar ligeiramente angulado, com o ombro correspondente à mão que faz o disparo um pouco mais para trás, em relação ao ombro correspondente à mão de suporte. Para buscar a estabilidade da base, os joelhos do atirador devem estar ligeiramente flexionados e o tronco um pouco inclinado para frente, como se o atirador estivesse esperando ser empurrado para trás.


imagem 01 - weaver.jpg

Posicionamento (ou postura) do tipo Weaver. Note que nenhum dos braços fica totalmente esticado, os pés não ficam paralelos, o ombro da mão de suporte fica mais para frente do que o ombro da mão dominante. A posição busca a estabilidade na estrutura muscular do atirador.


[1.2] Isósceles: posição ou postura de tiro que se tornou popular a partir da década de 1980, quando os atiradores Brian Enos e Rob Leatham começaram a utilizá-la, com muito êxito, nas provas de IPSC, modalidade de tiro prático.

Assim como a Weaver, a Isósceles é uma postura que segura a arma curta com as duas mãos, para melhor estabilizá-la. A mão que efetua o disparo segura a arma, enquanto a mão de suporte envolve a primeira. Os dois braços ficam completamente esticados, com os cotovelos travados nesta posição. Vista por cima, esta posição faz o desenho de triangulo isósceles, composto pelos dois braços do atirador, de igual tamanho, ambos formando os dois catetos maiores, com o cateto menor do triângulo formado pelo tórax do atirador.

A pressão exercida pelas mãos do atirador não é uniforme: a mão de suporte deve ser responsável por aproximadamente 70% (setenta por cento) da força de estabilização da arma. Resta para a mão que efetua o disparo apenas 30% (trinta por cento) da força de estabilização da arma.

A postura Isósceles busca sua estabilidade na estrutura óssea do atirador, ao contrário da Weaver, que busca estabilidade na estrutura muscular.

Os pés ficam posicionados paralelamente, ambos apontados para frente, com os joelhos levemente flexionados e com o tronco um pouco inclinado para frente, como se o atirador estivesse esperando um empurrão para trás.

Quase todas as posturas existentes, com exceção das posturas que seguram a arma curta com apenas uma das mãos, são variações ou modificações dessas duas posturas básicas.

O atirador deve experimentar ambos os posicionamentos e decidir qual deles se adequa melhor às suas necessidades, assim como à postura natural de seu corpo.


 

imagem 02 - isósceles.jpg

Posicionamento (ou postura) do tipo Isósceles. Note que os braços e o tórax do atirador formam o desenho dos catetos de um triângulo isósceles. A posição busca a estabilidade na estrutura óssea do atirador.


[2] EMPUNHADURA:

Estou falando de armas curtas, empunhadas com as duas mãos, portanto fico restrito às duas empunhaduras utilizadas: uma para os revólveres e outra para as pistolas. Sim, elas são diferentes e a utilização da empunhadura inadequada para a arma é capaz de arruinar o resultado dos tiros, podendo até lesionar o atirador.

[2.1] Revólver: o revólver deve ser empunhado com a mão dominante, com o dedo fora do gatilho, depois disso, a mão dominante deve ser envolvida pela mão de suporte, buscando-se preencher os espaços vazios que “sobraram” na empunhadura da arma. O polegar da não dominante deve ficar flexionado, quase apontado para o chão, com o polegar da mão de suporte posicionado sobre o polegar da mão dominante.


 

imagem 03 - revólver.jpg

Empunhadura de duas mãos correta para o revólver. Note os polegares cruzados, com o polegar da mão dominante flexionado, quase perpendicular ao chão, enquanto o polegar da mão de suporte repousa, também flexionado, sobre o polegar da mão dominante.


[2.2] Pistola: deve ser empunhada com a mão dominante, com dedo fora do gatilho, depois disso a mão de suporte deve envolver a mão dominante, buscando o preenchimento dos espaços que “sobraram” na empunhadura da arma. O polegar da mão dominante deve ficar esticado, apontado para frente, em direção ao alvo, podendo também ser descansado sobre a trava de polegar da arma (se a arma tiver essa trava, como a 1911), ou sobre o apoio que algumas pistolas possuem para o polegar. A mão de suporte deve ficar torcida para baixo, com o polegar igualmente apontado para o alvo. A pistola corretamente empunhada apresenta os dois polegares sobrepostos, ambos apontados para o alvo.


imagem 04 - pistola.jpg

Empunhadura de duas mãos correta para pistola. Note os polegares esticados de forma sobreposta, ambos apontados para o alvo, com o polegar da mão dominante repousando sobre o polegar da mão de suporte.


[3] VISADA:

Em primeiro lugar devo deixar claro que o atirador precisa buscar atirar sempre com os dois olhos abertos, optando por fechar um deles em último caso, se realmente não puder obter uma imagem razoável com ambos abertos. O ser humano possui visão binocular, com ambos os olhos voltados para frente, dispostos desta forma para capacitá-lo à percepção de profundidade. Atirar sem a percepção de profundidade é perfeitamente possível, mas desaconselhável, pois toda a percepção de tridimensionalidade fica muito prejudicada, podendo até ficar totalmente obliterada.

A visada é uma linha reta que parte dos olhos do atirador, passando pelo aparelho de pontaria da arma (neste caso, assumo ser a alça e a massa de mira, por ser o aparelho mais comum) e terminando na parte do alvo que se busca acertar com o projétil.

Destra forma, o atirador fica com três planos de visão sobrepostos à sua frente: o mais próximo, onde está a alça de mira, o intermediário, onde está a massa de mira, e, finalmente, o mais distante, onde está o alvo.

Os olhos humanos são capazes de focar em apenas um desses três planos de visão! Então, em qual deles devo focar minha visão em busca de um disparo acurado? A resposta é: na massa de mira!

A visada corretamente efetuada deve mostrar a alça de mira fora de foco, a massa de mira perfeitamente focada e o alvo desfocado.


imagem 05 - visada.jpeg

A imagem mais à direita mostra a visada correta. Note que apenas a massa de mira está nitidamente focada pelos olhos do atirador.


[4] RESPIRAÇÃO:

A respiração implica necessariamente na oscilação da postura do atirador, pois os ciclos de inspiração e expiração provocam grande variação no volume do tórax, fazendo com que a posição dos braços sofra grande variação em altura.

Por isso, o ideal seria parar de respirar para atirar com mais precisão. Mas isso é impossível, pois com apenas poucos segundos de respiração presa, a pressão arterial do atirador começa a subir e ele passa a tremer, perdendo a estabilidade e o ponto de visada.

A respiração não deve parar, mas sua cadência deve ser controlada pelo atirador, diminuindo a frequência e permanecendo um pequeno intervalo de tempo com os pulmões vazios, sem, contudo, parar de respirar.

Deve-se buscar o disparo neste momento, de pouca oscilação do tórax, quando os pulmões estão vazios, antes da próxima inspiração. Caso a respiração atrapalhe a estabilidade da postura e da visada, não atire, em vez disso, respire novamente e tente efetuar o disparo no próximo momento de pouca oscilação do tórax.

[5] CONTROLE DO GATILHO:

Este é o fundamento mais difícil de dominar, é a técnica mais essencial para o bom disparo e o momento em que quase todos os atiradores, iniciantes ou experientes, estragam o disparo.

Ao premer do gatilho, inicia-se uma série de movimentos mecânicos, assim como uma série de reações químicas e/ou físicas, que devem culminar na expulsão do projétil. Para a percepção humana, o disparo acontece em um só momento, quando tudo ocorre instantaneamente. Nada poderia estar mais equivocado! A grande sequência de acontecimentos entre o premer do gatilho e a expulsão do projétil é tão longa e demorada, que permite a ocorrência da maior parte dos erros capazes de empobrecer o resultado obtido pelo atirador. Não cabe aqui discorrer sobre tudo que acontece nesse momento, acredite, o texto ficaria muito longo. Em vez disso, vou passar ao fundamento para o bom acionamento do gatilho, que deve ser treinado exaustivamente, durante toda a vida do atirador:

O dedo do atirador deve tocar o gatilho com a porção compreendida entre a última falange do indicador e o pomo digital do dedo indicador.


imagem 07 - diagrama.jpeg

O primeiro desenho mostra como o gatilho deve ser espremido, com a força sendo exercida apenas para trás. Os demais desenhos, com setas vermelhas, mostram formas erradas de acionamento do gatilho, o que ocasiona o deslocamento do ponto de impacto para os lados direito ou esquerdo do ponto visado. Note que o ponto de contato entre o dedo e o gatilho é de fundamental importância: se o dedo entrar demais, a arma é puxada para o mesmo lado da mão dominante, e, se entrar pouco, a arma é empurrada para o lado da mão de suporte.


O gatilho deve ser lentamente espremido num movimento gradual e constante para trás, tomando-se todo o cuidado para jamais exercer forças com componentes diagonais, capazes de puxar ou de empurrar a arma para os lados.

O atirador não deve comandar o momento do disparo, pois isto gera a antecipação do recuo, deslocando a arma para cima ou para baixo, antes mesmo do projétil sair pela boca do cano. Em vez disso, o atirador deve ser surpreendido pelo momento do disparo, pois a surpresa evita qualquer reação antecipada ao recuo, mantendo a arma estável em suas mãos.

O diagrama abaixo demonstra os erros mais comumente cometidos, por falta de controle do gatilho:


 

imagem 06 - diagrama.jpg

Diagrama usado para relacionar os erros mais comuns com os pontos de impacto dos projéteis nos alvos.


Bem, meus amigos, esses são os 5 (cinco) fundamentos do tiro. Existem muitas outras técnicas, para disparos em provas de precisão ou em provas de velocidade, mas esses 5 (cinco) fundamentos devem estar sempre bem treinados, pois todas as técnicas partem deles.

Por fim, cabe sempre lembrar que, para tudo na vida, as técnicas avançadas são as técnicas básicas treinadas à exaustão.

Lembre-se: segurança em primeiro lugar.

Alexandre Coelho.

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