Da Pólvora Negra ao Cartucho Metálico De Fogo Central sem fumaça

Me propus um desafio: condensar a história das armas de fogo em uma linha de tempo bem definida e bem resumida. Não se preocupe com nomes e definições. Na medida em que eu tiver retorno, de acordo com a sua vontade, poderei falar de um período específico, ou sobre um sistema em particular.

Vamos ver se consigo apenas nomear os eventos, os títulos e as datas, sem dar maiores explicações e sem me deter em momentos específicos. Será um exercício de foco e força de vontade.

Para você, é a chance de entender a ordem cronológica em que a tecnologia foi desenvolvida pela humanidade. A linha de tempo abaixo começa na China da dinastia Tang.

Século IX D.C. – Obtenção da pólvora negra, na China, durante a dinastia Tang. No início, seu emprego foi como propelente e explosivo dos primeiros fogos de artifício. Acredita-se que logo tenha sido empregada militarmente, na forma de bombas de efeito moral, combustível de artefatos destinados a provocar queimaduras e propelente para flechas, disparadas as centenas em direção aos exércitos inimigos.

1.040 D.C. – Manuscrito mais antigo, que se tem conhecimento, com a receita e o meio de obtenção da pólvora negra, foi redigido por Wujing Zongyao (武经总要), na China, durante dinastia Song. Composição: 75% salitre (nitrato de potássio), 15% enxofre e 10% carvão.


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Manuscrito de Wujing Zongyao


Século XII D.C. – Transferência para o ocidente, através da rota da seda, do conhecimento sobre a existência, a receita e a forma de obtenção da pólvora negra.

1.242 D.C. – Roger Bacon, filósofo inglês, criptografa a receita e o meio de obtenção da pólvora negra em seu manuscrito sobre artes ocultas, intitulado “De Secretis operibus Artis et Naturae et de nulitate Magiae”. A criptografia só foi quebrada em 1.880 D.C., por H.W.L. Hilme, tenente coronel da artilharia britânica. Obviamente, o conhecimento sobre a pólvora negra se espalhou por toda a Europa através de outros meios, bem antes de Hilme.

1.320 D.C. – Primeiro canhão europeu de que se tem conhecimento. Encontrado no manuscrito, datado de 1.326 D.C., intitulado “De Nobilitatibus”, de autoria do inglês Walter de Millemete. O artefato ficou conhecido como Canhão de Millemete.


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O canhão de Millemete disparando seu projétil: uma flecha.


1.350/1.400 D.C. – Por toda Europa se desenvolve o canhão cônico (quase cilíndrico), de metal (bronze ou ferro), projetado para lançar projéteis esféricos, feitos de pedra ou metal. A tecnologia da fundição de sinos de igreja contribuiu sobremaneira para o avanço das técnicas de construção desses primeiros canhões cônicos.

1.380 D.C. – Por toda a Europa se espalha o desenvolvimento do "Handgonne": uma miniatura de canhão preso à extremidade de um bastão ou haste metálica, para ser carregado e disparado a partir das mãos ou do ombro de um soldado.


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Handgonne francês (Bombard). 1390/1400 D.C.


1.475 D.C. – Surgimento do "Matchlock". Na Alemanha, o "Handgonne" evolui para o que foi batizado de "Hackenbüsche" (Matchlock Musket) (minha tradução livre: “Mosquete Disparado por Pavio”). Trata-se de uma arma longa que já apresenta formato semelhante aos atuais fuzis e carabinas.


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Acima – Visão completa do Matchlock Musket
Abaixo – Detalhe de como funciona o disparo por pavio


1.500-1.510 D.C. – Surgimento do "Wheellock". Invenção creditada, por alguns pesquisadores, a Leonardo da Vinci, e, por outros, aos relojoeiros da época. É um sistema de roda dentada feita em metal, movida à corda, que em contato com uma pedra de sílex (flint), produz as faíscas necessárias à ignição da pólvora. Esse sistema, apesar de muito caro e excessivamente complexo, possibilitou a difusão das pistolas, pois o "Matchlock" mostrava-se pouco adequado para armas curtas.


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Sistema Wheellock: roda movida à corda em contato com pedra de sílex


1.520 D.C. – Credita-se a Gaspard Kollner, de Vienna e Augustus Kotter, de Nuremberg, o desenvolvimento do raiamento interno do cano (chamado de cano de “alma” raiada). Este é, até hoje, elemento mais importante para a precisão do disparo. Sem o raiamento (ou seja, com canos de “alma” lisa), é virtualmente impossível acertar disparos em silhuetas de tamanho humanoide, posicionadas em distâncias superiores a 100 metros.

1.530-1.540 D.C. – A Holanda encontra a resposta para a simplificação e o barateamento do mecanismo gerador de faíscas: o “Snaphaunce” (minha tradução livre: “ação de bicada”). Um par de pinças segura firmemente um pedaço de sílex que, ao premer do gatilho, colide contra uma placa de metal, produzindo as faíscas que entram no orifício aberto da culatra. Isso provoca a ignição da pólvora, mas a culatra aberta torna o mecanismo demasiado sensível ao mau tempo.


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Sistema Snaphaunce: a culatra permanece sempre aberta para receber as faíscas


1.570 D.C. – Armeiros espanhóis desenvolvem o “Miquelet, tido como o último passo necessário para o desenvolvimento da primeira arma de fogo capaz de disparar com a culatra fechada.

1.610/1.620 D.C. – Desenvolve-se, na França, o “Flintlock” ou Pederneira, primeiro mecanismo que dispara a partir de culatra fechada. A invenção é creditada ao armeiro Marin le Bourgeoys. Trata-se de um dos maiores saltos evolutivos entre todos os mecanismos de disparo desenvolvidos até hoje. Nele, a pedra de sílex colide contra uma pequena chapa de metal, que se desloca para a frente por causa da colisão. Isso também produz faíscas e, ao mesmo tempo, expõe a culatra da arma, o que possibilita o contato das faíscas com a pólvora, gerando a ignição necessária ao disparo.


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Sistema Flintlock, antes e depois do disparo


1.776/1.783 D.C. – Guerra de Independência dos Estados Unidos da América: conflito em que as armas longas com canos de “alma” raiada (Rifled Barrels) foram finalmente difundidas e utilizadas em campanha militar, primeiramente pelos americanos. Devido à complexidade da manufatura, passaram-se mais de 250 anos entre o surgimento do raiamento e sua utilização em escala militar.

1.799 D.C. – O cientista britânico Edward Charles Howard desenvolve o meio de obtenção da substância denominada Fulminato de Mercúrio. Trata-se de produto químico altamente explosivo e sensível à detonação por percussão. O desenvolvimento e a obtenção dessa substância possibilitaram o próximo passo na evolução das armas: a detonação da carga de pólvora por meio de uma espoleta.

1.800/1.850 D.C. – Surgimento de armas curtas de múltiplos canos, do tipo “duckfoot” e “pepperbox”, precursoras dos primeiros mecanismos de repetição.

1.807 D.C. – Desenvolvimento do sistema “Caplock” ou Percussão. Invenção creditada ao Reverendo Alexander John Forsyth, de Belhelvie, Escócia. Nesse mecanismo, as pinças destinadas à fixação da pedra de sílex são substituídas por um simples martelo de extremidade chata. A culatra termina em um diminuto tubo que se conecta com o compartimento onde fica a carga de pólvora. Na extremidade do tubo coloca-se uma espoleta, que, no início, era uma pequena quantidade de Fulminato de Mercúrio, envolto em papel. Ao premer do gatilho, o martelo percute a espoleta, gerando uma pequena explosão. As chamas dessa explosão viajam pelo estreito tubo e atingem a carga de pólvora, provocando o disparo.

1.808 D.C. – O Fulminato de Mercúrio possibilita a invenção do primeiro sistema carregamento pela culatra, ou retrocarga, a ser produzido em série: o “Dreyse Needle Gun”. Nesse sistema, um cartucho de papel é inserido na culatra de uma arma longa. A espoleta de Fulminato fica alojada dentro do cartucho. Ao fechar da culatra, uma agulha perfura o cartucho de papel e quase encosta na espoleta. Quando o gatilho é premido, a agulha percute a espoleta, iniciando a queima da pólvora e provocando o disparo. O sistema, apesar de eficiente e preciso, foi tido por frágil ante os olhos dos militares (à exceção dos Prussianos), o que limitou sua fama histórica.


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Sistema de disparo por agulha (ou Dreyse Needle Gun)


1.818 D.C. – O armeiro americano Artemus Wheeler, de Massachusetts, obtém a patente da primeira arma a utilizar um tambor cilíndrico, posicionado atrás de um único cano, tornando possível múltiplos disparos por repetição. Trata-se de uma carabina do tipo "Flintlock", em que o tambor cilíndrico, ao ser revolvido, apresenta ao cano uma nova câmara carregada e pronta para o disparo.


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Arma curta do tipo Flintlock construída com o sistema de tambor e cano único. Mecanismo patenteado por Artemus Wheeler


1.820 D.C. – A espoleta de papel utilizada no sistema “Caplock” recebe uma cobertura metálica voltada apenas para a face que toma o impacto do martelo, protegendo-a contra as intempéries e contra detonações acidentais. A parte revestida de papel fica voltada para baixo, em contato com o pequeno tubo. Esse tipo de espoleta ficou conhecido como “Percussion Cap” e seu desenvolvimento é creditado a várias pessoas, dentre elas: Joshua Shaw, Peter Hawker e Joseph Egg.


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Sistema Caplock ao lado de algumas espoletas do tipo Percussion Cap


1.820/1.830 D.C. – O armeiro americano Elisha Collier aperfeiçoa o mecanismo do revólver desenvolvido por Artemus Wheeler, adaptando-o para utilização do sistema “Caplock” e ligando mecanicamente o martelo ao tambor, com o objetivo de fazê-lo girar na medida em que o martelo é puxado para trás. Dessa forma, com um só movimento, a arma é engatilhada e uma nova câmara, carregada e pronta para disparar, é apresentada ao cano.

1.826 D.C. – O armeiro francês Casimir Lefaucheaux começa a desenvolver o primeiro cartucho metálico da história. Trata-se do “Pinfire Cartridge” (minha tradução livre: “cartucho disparado por pino”). Feito de latão (mesmo material usado até hoje), este cartucho destina-se à retrocarga e apresenta um pino para detonar a espoleta de Fulminato na lateral interna de sua porção traseira. Por causa da protuberância lateral, formada pelo pino, só é possível carregá-lo na culatra da arma em uma posição certa, para receber o impacto do martelo.


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Cartuchos do tipo Pinfire (ou Pinfire Cartridges)


1.835 D.C. – O armeiro estadunidense Samuel Colt obtém a patente de seu primeiro revólver de percussão, com gatilho retrátil, sem guardamato, dotado de tambor cilíndrico de 5 câmaras e operado por ação simples. Batizado de Modelo n.º 1 ou Colt Paterson. Utiliza o sistema “Caplock” em cada uma das câmaras de seu tambor. A adaptação do “Caplock” aos tambores dos revólveres persistiu até o surgimento do cartucho metálico de fogo circular e ficou conhecida pelo apelido de “Cap and Ball”, pois cada uma das câmaras deveria receber uma espoleta (Cap), além de uma carga de pólvora e um projétil esférico (Ball). É o primeiro revólver cuja produção industrial tornou-se viável.


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Colt Paterson: Cap and Ball, tambor cilíndrico de 5 câmaras e ação simples


1.836 D.C. – O armeiro Dreyse consegue a patente de sua arma longa de retrocarga, inventada em 1.808 D.C., o “Dreyse Needle Gun”. O exército prussiano passa a adotá-la, o que populariza muito o conceito dos cartuchos e da retrocarga.

1.849 D.C. – Invenção do Projétil de Minié (Minié Bullet), desenvolvido por Claude-Etienne Minié, oficial das forças armadas francesas. Trata-se do primeiro projétil ogival. Além de sua geometria ogival, este projétil ainda apresenta uma cavidade cônica na parte de trás, para que os gases da queima da pólvora provoquem sua expansão, o que aumenta a fricção e a área de contato com o raiamento do cano da arma. O resultado é um tiro bem mais preciso, pois o raiamento é melhor aproveitado. Apesar de já existirem armas de retrocarga, esse projétil se destinava àquelas de antecarga, pois este ainda era o sistema que equipava quase todos os exércitos da época.

1.860 D.C. – Horace Smith e Daniel Wesson (Smith & Wesson) desenvolvem o primeiro cartucho metálico de fogo circular (ou rimfire), no diminuto calibre .22 Curto (ou .22 Short), para ser disparado pelo revolver .22 rimfire Modelo n.º 1, desenvolvido pelos mesmos. Esse tipo de cartucho apresenta culote bem definido em sua porção traseira, que serve para fins de extração e para armazenar a mistura iniciadora, esta última fica disposta em forma circular, “recheando” todo o culote. O pino percussor, ou o martelo, da arma deve bater no culote do cartucho, amassando-o e detonando a mistura iniciadora, o que possibilita a queima da carga de pólvora e o disparo. Essa tecnologia é empregada até hoje, apenas em calibres menores, sendo capaz de apresentar resultados extremamente precisos.


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Cartucho de fogo circular: note o culote bem definido e o local onde o martelo ou pino percussor deve bater para executar o disparo.


1866/1868 D.C. – Hiram Berdan, de Nova York, US, e Edward Mounier Boxer, de Woolwich, UK, desenvolvem, separadamente, dois modelos de espoleta que tornaram possível o surgimento do cartucho metálico de fogo central. Modelos “Berdan” e “Boxer”. Esta é a tecnologia utilizada até hoje para a construção de quase todos os cartuchos metálicos em calibres maiores do que os .22 de fogo circular. Esse cartucho pode ou não apresentar culote, mas, quando apresenta, sua função é a de extração (podendo também ser a de headspace). No Centro da base do cartucho há uma cavidade (bolso), onde se aloja uma espoleta metálica. Ao premer do gatilho, o martelo, ou pino, bate no centro dessa espoleta, detonando-a e provocando a ignição da carga propelente. Atualmente, o modelo “Boxer” é mais popular e difundido, pois facilita o reaproveitamento do estojo por atiradores desportivos, que desenvolvem suas próprias cargas, de acordo com as necessidades das diversas modalidades.


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Cartucho metálico de fogo central em calibre .45 Auto (ou .45 ACP)


1.884 D.C. – O químico francês Paul Marie Eugène Vieille desenvolve a fórmula básica e o meio de obtenção da Smokeless Powder (chamada no Brasil de Pólvora Química). Este mesmo propelente é utilizado até hoje, tendo substituído a Pólvora Negra em ambos os Cartuchos Metálicos: de Fogo Circular e de Fogo Central. Existem inúmeras variações da “pólvora sem fumaça”, mas todas seguem a mesma base da fórmula de Nitrocelulose aperfeiçoada e estabilizada por Paul Vieille. Esse avanço permitiu inúmeras evoluções tecnológicas, desde o estrangulamento da boca dos estojos metálicos, viabilizando a diminuição do calibre e o aumento das velocidades dos projéteis, até a invenção dos vários sistemas semiautomáticos e automáticos da contemporaneidade. Apenas após o emprego da Nitrocelulose foram possíveis tiros acurados em distâncias superiores a 1000 metros. A pólvora patenteada por Vieillie se chama “Poudre B” e tem a seguinte composição: 68,2% Nitrocelulose Insolúvel, 29,8% Nitrocelulose Solúvel Gelatinizada com Éter e 2% Parafina.


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Pólvora sem fumaça (ou Pólvora Química) denominada Poudre B.


Aqui termina essa linha de tempo, pois a Nitrocelulose possibilitou o surgimento do cartucho metálico de fogo central sem fumaça, que é utilizado nas armas contemporâneas mais comuns.

Existem outros sistemas desenvolvidos posteriormente, como os cartuchos sem estojos metálicos, mas, além de não serem empregados em larga escala, estes sistemas são outra história.

Alexandre Coelho. 20/mar/2015.

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