Competir: como milhares de atiradores passaram do “não, obrigado” ao “sim, por favor” [Parte 1 de 2]

Desde 2015 penso em escrever sobre esse assunto. Aliás, segundo meus planos, este quarto texto seria publicado aqui no blog em abril de 2015. Mas nem tudo segue conforme o planejado. Estou aqui, em agosto de 2016, dando continuidade aos trabalhos. Espero conseguir publicar atualizações com periodicidade cada vez menor.

Mas o que significam a pergunta e a resposta do título?

Significam que eu já praticava o esporte do tiro, mas não competia regularmente, não até a publicação, pelo Exército Brasileiro, de uma norma denominada Portaria COLOG n.º 001, de 16 de janeiro de 2015, que visava acabar de uma vez por todas com o colecionismo de armas e o tiro esportivo no Brasil. Isso mesmo: comecei a competir regularmente por causa de uma norma jurídica que visava acabar com tudo relacionado ao esporte em questão. Acho que a resposta ficou tão vaga quanto a pergunta. Eu explico.

A minha paixão pelo colecionismo e pelo esporte do tiro vem desde a mais tenra infância. Desde as minhas mais longínquas memórias, sou fascinado por armas brancas e de fogo, assim como provas de tiro esportivo, seja com arco, ar comprimido ou armas de fogo. A lendária Walther P-38 já povoava minha memória desde esta época, embora eu ainda nem soubesse seu nome e sua história.

Tive revólveres e pistolas de espoleta, de metal, de plástico, que faziam barulho e soltavam faíscas, que disparavam setas de plástico com ventosas... tive até aqueles mais simples, que deixavam tudo ao encargo da imaginação. Por falar em imaginação, não era raro que os tubos de metal do antigo aspirador de pó se transmutassem em fuzis de precisão, com o que eu abatia terroristas imaginários na sacada da casa do vizinho da frente. Brincava de quase tudo que esses simulacros me permitam imaginar, inclusive, brincava de tiro ao alvo.


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Brinquedos que tive. Da esquerda para direita: [1] Revólver de Metal Ranger da Estrela, funcionava com espoleta de fita; [2] Luger de plástico da marca Gavião, disparava setas de plástico com ventosa; [3] Submetralhadora Super Raio da Estrela, lembrava a Thompson, mas tinha uma pedra circular que liberava faíscas com o acionamento do gatilho.


Pratico o esporte do tiro desde fevereiro de 1992, quando tinha 16 (dezesseis) anos de idade. Era outra época: antes de 1997, praticar o esporte do tiro não era proibido para menores de idade. Tive dois mestres que competiam regularmente em provas de tiro prático e esportivo. O curso era ministrado no segundo piso de uma das poucas lojas de armas da minha cidade. Era uma pequena sala de aula e um estande de tiro com 6 (seis) raias de 1 (um) metro de largura e 15 (quinze) metros de profundidade.

Comecei pelos revólveres, que são até hoje minhas armas curtas preferidas. Com os revólveres e os dois primeiros professores, aprendi a respeitar as armas, manuseá-las com segurança, empunhar e efetuar disparos de forma tecnicamente correta. Confirmei o que eu já suspeitava: a prática do tiro vai muito além da defesa, ela se abre para toda amplitude do esporte e da recreação.

O curso tinha uma excelente carga teórica. No primeiro dia, a aula ensinava conceitos que trago até hoje, como legislação, calibre real e calibre nominal, fundos e cheios de raiamento, momento angular e estabilização dos projéteis, diferenças entre revólver, pistola, carabina, espingarda e fuzil, conceito de poder de parada (e porque ele é relativamente inútil), fogo central, fogo circular, componentes dos cartuchos e muitos outros. Foi realmente recheado de conteúdo relevante esse meu primeiro contato com o mundo das armas. O curso também alertava os alunos sobre a escalada do preconceito contra o esporte do tiro e o direito de defesa.

Os dias subsequentes foram preenchidos por aulas práticas, com os revólveres Taurus, modelos 90 e 83, nos calibres .22LR e .38SPL, respectivamente. Ambos tinham 4 (quatro) polegadas de cano, tinham o mesmo tamanho e o mesmo peso quando desmuniciados, eram dotados de tambor com 6 (seis) câmaras e cabos de madeira zigrinada. Lindos. Naquela época, a Taurus fazia revólveres de excelente qualidade.


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Taurus Modelo 83. Revólver dotado de cano com 4 (quatro) polegadas de comprimento, tambor com 6 (seis) câmaras e alça de mira regulável em altura e lateralidade. Note a coronha de madeira zigrinada. Ótima opção para ensinar o tiro esportivo e defensivo. Preciso e bem balanceado. Naquela época, a Taurus era outra.


Lembro-me como se fosse hoje da minha felicidade quando tapei dois furos, feitos por mim no alvo, com apenas uma obreia (adesivo circular de uma polegada de diâmetro, usado para tapar alvos, voltando-se a atirar sem perder a conta dos acertos).


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Rolos de obreias pretas. Cada rolo traz centenas de adesivos circulares, todos com uma polegada de diâmetro (2,54 centímetros). Há obreias de várias cores, para tapar os diversos tipos de alvos.


Foi no final deste curso, que com 16 anos de idade, participei da minha primeira prova de tiro. Era uma adaptação da prova conhecida como Tiro Rápido de Precisão, mas com os alvos do Saque Rápido colocados à 10 metros de distância. Em textos futuros, irei falar sobre as regras oficiais de várias modalidades de tiro prático e desportivo. Hoje não.

Éramos 12 (doze) alunos. Todos competimos naquele último dia de curso. Todos disparamos 20 (vinte) tiros com os revólveres calibre .38SPL, valendo uma medalhinha de metal pintada com tinta dourada. Sorte, ou sei lá o que, mas eu terminei essa prova em primeiro lugar. Guardo até hoje a medalhinha, toda oxidada, com o desenho do logotipo da loja de armas.

Continuei praticando no mesmo lugar. Comprava os cartuchos calibre .22LR e a tímida recarga calibre .38SPL na própria loja, subia para o estande e buscava praticar os fundamentos aprendidos no curso de fevereiro de 1992. Eu ainda não tinha uma arma de fogo, por isso treinava com os mesmos revólveres utilizados nos cursos. Estavam sempre limpos, bem guardados e quase sempre com as miras bem reguladas.

Em 1997, quando eu tinha 21 (vinte e um) anos de idade, veio a Lei n.º 9.437, de 20 de fevereiro daquele ano. Sim, o PSDB do sociólogo Fernando Henrique Cardoso, havia acabado de transformar em crime inafiançável, de perigo abstrato, tanto a posse de armas de fogo sem registro, quanto o porte de armas de fogo, ainda que regularmente registradas.

Lembro-me bem que na época isso me deixou um pouco reticente, mas eu ainda não tinha maturidade para entender o que estava acontecendo: desde 1995, a geração de políticos brasileiros que estavam finalmente chegando ao poder, tinha, e ainda tem, como um de seus objetivos, banir as armas de fogo do Brasil, tanto para a defesa, quanto para a prática desportiva, embora não se importem muito com a posse e o porte de armas pela sempre crescente criminalidade. O que os incomodava e ainda incomoda é a posse e o porte de armas pelo cidadão comum, sem antecedentes criminais, que visa à defesa e/ou à prática desportiva.

Continuei praticando no mesmo local, embora as sessões de tiro estivessem ficando cada vez mais esparsas, pois as dificuldades impostas pela nova legislação e o consequente aumento dos preços dos insumos estavam realmente fazendo diferença. E assim, o movimento político para sufocar tanto o comércio legal de armas, quanto o esporte do tiro, estava dando os frutos esperados pelos seus idealizadores.

Veio o meu curso universitário de Direito e, por vários anos, me distanciei do esporte. Recém-formado, tinha acabado de passar na prova da OAB, quando assisti da mesa do escritório em que trabalhava, a publicação da Lei n.º 10.826, de 22 de dezembro de 2003. Nove anos depois, em 2012, pude ligar os pontos e entender que essa Lei foi proposta e votada no auge do mensalão, por um dos partidos políticos mais corruptos de todos os tempos, o PT, e tinha como objetivo continuar o “desarmamento” começado em 1997.

A Lei de 2003 ficou conhecida como “Estatuto do Desarmamento” e foi responsável pelo fim de quase todo o comércio legal de armas de fogo no Brasil, embora o comércio ilegal estivesse cada vez mais próspero. Afinal, o que incomoda essa atual geração de políticos, que governa desde 1995, é a posse, o porte e a prática desportiva com armas de fogo, pelo cidadão comum, sem antecedentes criminais.

Em 2006 voltei a praticar o esporte, havia se passado cerca de 9 (nove) anos sem praticá-lo. Recomecei pelo ar comprimido. No Brasil, estávamos no início da era das molas de nitrogênio (gas ram). Eu mesmo comprei e instalei o gas ram na minha carabina de ar comprimido.


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Gas ram da mesma marca, modelo e especificações do que eu instalei na minha carabina de ar comprimido. SMS de 55 Kg.


O tiro voltava para minha vida. Porém, em 2006, eu estava satisfeito com a parte recreativa do esporte. Atirava meus chumbinhos em quintais e em sítios, com meus amigos de infância, derrubando latinhas e furando pequenos alvos de papel feitos no computador por mim mesmo e impressos em papel cartão.

A paixão pelo esporte estava lá, adormecida, mas foi reacendida. No entanto, praticá-lo com armas de fogo era demasiado complexo: eu tinha que vencer todos os obstáculos do desarmamento civil, vencer toda a burocracia imposta pelo Exército, arcar com os elevados custos advindos da crescente burocracia, para conseguir todos os papéis necessários à aquisição e o transporte das armas, assim como para a compra dos insumos.

Mas em 2009 eu senti que o momento havia chegado: eu precisava dar vazão ao amor pelo esporte do tiro. Eu queria muito praticá-lo e a força de vontade acabou vencendo os obstáculos que estavam lá apenas para dificultar o acesso dos novatos e para desanimar a permanência dos veteranos.

Pois bem: me filiei a um clube e me registrei no Exército Brasileiro, voltando a atirar com armas de fogo. Mais de 10 (dez) anos depois da última vez em que havia sentido o inebriante cheiro de pólvora pela última vez, em abril de 2010 eu voltara a senti-lo. Não foi fácil. Todo o processo levou cerca de 8 (oito) meses.

O tiro esportivo ocupou na minha vida o mesmo espaço que ocupava antes: eu buscava praticar os exercícios defensivos e passava a maior parte do tempo dedicado à recreação. Aprendi a recarregar meus próprios cartuchos. Atirava em metais e em papel, além de, é claro, em latas de refrigerante (plinking).

As dificuldades impostas pelo Exército Brasileiro para conseguirmos os nossos papéis, necessários à prática do esporte, estavam cada vez maiores. A validade dos papéis logo expirava e conseguir renová-los era uma tarefa cada vez mais cara e difícil. A escalada mais acirrada da burocrática contra o esporte começou justamente após o meu primeiro Certificado de Registro, em meados de 2011. Dadas as crescentes dificuldades, os veteranos estavam desistindo de renovar seus papéis e abandonando o esporte. Ao passo que os novatos, mesmo empolgados com a possibilidade de se registrar, acabavam desistindo depois de saber das crescentes dificuldades.

Como se isso não bastasse, processos administrativos que deveriam, por Lei, terminar em 15 (quinze) dias, para obtenção dos papéis necessários, estavam levando mais de 2 (dois) anos. E alguns só terminavam após o atirador impetrar Mandado de Segurança contra do comando do Exército.

A política ideológica do desarmamento, iniciada timidamente em 1997, estava atingindo um de seus principais objetivos: banir definitivamente o esporte do tiro, para dar cabo dos atiradores, que são os cidadãos mais resistentes às tentativas de proibição do comércio legal de armas de fogo.

Estávamos realmente enfraquecidos em 2014. Clubes vazios e dificuldades tremendas para adquirir insumos. Chegou-se a proibir o repasse de insumos em toda a Primeira Região Militar por quase dois anos, deixando milhares de atletas sem poder praticar e competir.

Diante do nosso enfraquecimento, veio a aquele que deveria ser o derradeiro ataque, o golpe de misericórdia contra o esporte do tiro, que estava realmente deixando de existir por falta de quem o praticasse: a publicação da Portaria COLOG n.º 001, de 16 de janeiro de 2015. Esta norma veio apenas para acelerar o então inevitável fim do tiro esportivo e do colecionismo de armas.

Foi aí que – o trocadilho me é irresistível – o tiro dos burocratas saiu pela culatra de suas canetas.

Continua na segunda parte.

Lembrem-se: segurança em primeiro lugar.

Alexandre Coelho.

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