Classificação das Armas de Fogo Parte 1 – Curtas e Longas

Bem-vindos ao Aço Temperado!

Hoje vamos falar sobre a primeira parte da classificação das armas de fogo, que as separa em dois grandes grupos. A partir destes dois grupos, subdividem-se todos os demais ramos das armas de fogo.

Deve-se sempre começar a partir da noção primordial de que não há classificação definitiva ou absoluta para os objetos e para os seres. A classificação está em constante evolução e muitos estudiosos discordam entre si quanto a colocação de determinado item em um grupo ou em outro. Muito provavelmente você irá discordar de mim, quanto a uma forma ou outra de pensar e expor o tema, mas isso não deve necessariamente invalidar a minha forma de pensamento e nem a sua, desde que guardemos as devidas proporções lógicas dentro de nossas discordâncias.

Mas por que devemos classificar o objeto do estudo? Basta dizer que, sem a classificação daquilo que se busca estudar, não haveria como agrupar os diferentes objetos, levando-se em conta suas semelhanças e diferenças, sendo necessária até para que se dê nome aos seres e aos objetos. A mente humana classifica, consciente ou inconscientemente, para todos os tipos de propósito, percebendo distinções e características comuns entre objetos (ou seres), até agrupá-los ou separá-los, pelo reconhecimento de características próprias.

Pois bem, as armas de fogo podem ser: [1] curtas e [2] longas. Estes são os dois grandes grupos em que se dividem o objeto do presente estudo. Trata-se de critério de divisão por tamanho e forma de operação.

Para entender esta divisão, entre curtas e longas, deve ser introduzido o conceito de ergonomia: trata-se do estudo científico das relações entre homem e máquina, visando segurança e eficiência na maneira como acontece a interação entre estes dois elementos.

Do pondo de vista ergonômico, as armas de fogo curtas são aquelas cujas dimensões, forma de empunhadura e posicionamento das partes móveis, permitem a realização de todas as operações essenciais ao disparo, de forma segura e eficaz, com apenas uma das mãos. A mão de apoio não é indispensável, mesmo que seja desejável a utilização das duas mãos, para melhorar e estabilidade e precisão, durante os disparos.

Tanto nas curtas, quanto nas longas, as operações ditas “essenciais ao disparo” são: [1] posicionar-se de forma a engajar o alvo; [2] pegar, ou sacar a arma, fazendo a empunhadura adequada; [3] fazer a visada, ou apontar a arma mesmo sem fazer visada; [4] acionar o gatilho.

Quando a ergonomia do projeto da arma de fogo permite que as operações, essenciais ao disparo, possam ser feitas com apenas uma das mãos, com segurança e agilidade, por um ser humano de porte médio, este objeto cai na classificação de arma curta.


IMG 01 - Exemp Arma Curta.jpgExemplos de silhuetas de armas curtas: note que projetos bastante diferentes de armas de fogo podem ser agrupados nesta categoria, de fato é isso que se espera, pois este é o primeiro grande grupo da classificação, por isso deve acolher diversas características que depois servirão como parâmetros para as subdivisões.


A contrário senso, quando a ergonomia do projeto da arma de fogo impõe a necessidade de utilização de ambas as mãos, para que todas as operações essenciais ao disparo possam ser feitas, com segurança e agilidade, este objeto cai na classificação de arma longa.


IMG 02 - Exemp Arma Longas.jpgExemplos de silhuetas de armas longas: note que estamos diante de um grupo ainda mais abrangente do que o formado pelas armas curtas.


Municiar a arma, assim como colocá-la em condição de pronto emprego, não são operações essenciais ao disparo propriamente dito, e, normalmente, são realizadas com as duas mãos, tanto nas armas curtas quanto nas longas. O fato de que essas operações são normalmente feitas com as duas mãos, tanto para curtas quanto para longas, faz disso uma semelhança e não uma diferença, não detendo qualquer utilidade para separação dos diferentes objetos de estudo. Trata-se de um exemplo de critério inútil para a presente classificação.

Continuando nas diferenças, a forma de empunhar armas curtas dispensa o apoio de qualquer das suas partes no ombro do atirador. A arma curta deve ser apoiada, no máximo, em dois pontos do corpo do atirador: a mão dominante e a mão de apoio.

Sim, existem algumas armas curtas em que podem ser acopladas coronhas típicas de armas longas, para possibilitar o apoio no ombro do atirador, com o objetivo de dispará-las a partir de posturas próprias de armas longas, aumentando a precisão e a estabilidade advindas do terceiro ponto de apoio. É o caso de alguns projetos de armas curtas muito populares durante a primeira metade do século XX, tendo sido utilizadas, com certa frequência, nos dois conflitos mundiais daquele período.

Esta adaptação não transforma as armas curtas em longas, pois seu projeto original é o que deve definir a classificação quanto ao tamanho. A adaptação de uma coronha típica de arma longa é apenas isso: uma adaptação de uma peça oriunda de outro tipo de arma, que não muda o projeto original, mas apenas acresce uma característica de outro desenho.

O exemplo mais emblemático desta adaptação é a Luger (Pistole Parabellum), dotada de Coldre Coronha, uma peça oca, toda esculpida em madeira, com dupla função: [1] acondicionar a arma, servindo como coldre; [2] ser acoplada à parte de trás da empunhadura da arma, propiciando ao atirador apoiá-la em seu ombro, como se fosse uma arma longa. Outras armas curtas também adotaram esta solução ergonômica, como a Mauser C96 e a Colt 1911.


IMG 03 - Coldre Coronha.jpgA primeira imagem, mais acima, mostra uma Luger (Pistole Parabellum), com uma coronha típica de arma longa acoplada à parte de trás de sua empunhadura, note que esta peça não acumula a função de coldre. A segunda imagem, no meio, mostra uma Mauser C96, com o seu Coldre Coronha acoplado à parte de trás de sua empunhadura. A terceira imagem, mais abaixo, mostra uma 1911, com seu Coldre Coronha acoplado à parte de trás de sua empunhadura.


Após a Segunda Grande Guerra, devido à evolução das armas ditas “de assalto”, assim como o avanço tecnológico dos materiais em que são construídas as armas, cada vez mais leves, duráveis e resilientes, o conceito de Coldre Coronha se tornou obsoleto e foi abandonado.

Ao contrário do que se pode inferir, o tamanho do cano das armas de nada serve para classificá-las como curtas ou longas. Quer ver? Tome como exemplo determinada arma curta dotada de cano que mede 6 (seis) polegadas de comprimento, como o Smith & Wesson modelo 686, compare-o a uma arma longa dotada de cano que mede 5,5 (cinco e meia) polegadas, como todas as longas fabricadas pela Kriss Vector. Note que, no exemplo acima, a arma curta tem o cano maior que o da arma longa.


IMG 04 - 686 vs Kriss Vector.jpgAcima: Smith & Wesson modelo 686. Abaixo: Kriss Vector.


De fato, os canos das curtas podem chegar a medidas maiores ainda, como o Taurus modelo RT 980, dotado de cano que mede 12 (doze) polegadas. Para exemplo final, considere o cano da longa Taurus, modelo CTT 40, cuja medida é de apenas 8 (oito) polegadas.


IMG 05 - 980 vs CTT40.jpgAcima: RT 980. Abaiixo: CTT 40.


Conclui-se, portanto, que, assim como a coronha adaptável, o tamanho do cano também não se mostra critério válido para separação das armas entre curtas e longas.

No entanto, para todas as armas acima mencionadas, o critério da forma de interação entre o ser humano e a máquina é o essencial para a distinção entre curtas e longas.

Como dito desde o início, é a ergonomia que vai definir se determinada arma de fogo é longa ou curta.

Apear de desejáveis, os apoios para os ombros dos atiradores não são indispensáveis à ergonomia das armas longas. Diversos projetos de longas simplesmente os dispensam, ou os tornam retráteis (ou rebatíveis), como a CBC modelo Pump Tatical, o IMBEL modelo M964, ou a Mossberg modelo 500.


IMG 06 - CBC 964 500.jpgNa primeira imagem, mais acima: CBC Pump Tactical, com a coronha rebatida. Na segunda imagem, no meio: Imbel M964 (PARAFAL), com a coronha rebatida. Na terceira imagem, mais abaixo: Mossberg 500, sem coronha, dotado apenas de empunhadura típica de arma curta.


Resumindo tudo que foi dito até aqui:

[1] Arma Curta de Fogo: aquela cuja ergonomia do projeto permite, ao atirador de porte médio, executar as operações essenciais ao disparo, de forma segura e ágil, com apenas uma das mãos.

[2] Arma Longa de Fogo: aquela cuja ergonomia do projeto impõe, ao atirador de porte médio, a utilização de ambas as mãos, para realização, de forma segura e ágil, das operações essenciais ao disparo.

Por se tratar se classificação que se busca fazer com critérios abrangentes, é aconselhável, para evitar-se o cometimento de erros, que jamais se tome premissas não razoáveis, como supor que determinada arma deve ser tida como curta, diante de uma pessoa muito grande e forte. O conceito de proporcionalidade em relação ao ser humano médio jamais deve ser abandonado, devendo ser entendido como o mais universal possível, excluindo-se os exemplos extremados.

Curtas e Longas: estes são os dois grandes grupos de armas de fogo de onde partem todas as demais classificações.

Lembrem-se: segurança em primeiro lugar.

Alexandre Coelho.

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